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Jornal Web - Cultura Colaborativa

Walter Bandeira ou da arte de ser mortal


Walter era viril quando cantava, mesmo requebrando e tentando desanuviar o peso de sua presença em cena

04/06/2009 - 11:30
 

Por Henry Burnett para o Portal Cultura

Há bem pouco tempo atrás escrevi um texto sobre música paraense no site do UOL, o Trópico. Nele, eu disse de modo descompromissado que numa passagem por Belém podemos ouvir muitas coisas distintas, e disse, entre outros exemplos, que podemos ouvir um cantor raro chamado Walter Bandeira. Bem, desde terça-feira este verbo precisa ser utilizado no passado; poderíamos, porque Bandeira não está mais entre nós.

Em muitas ocasiões eu disse, em resposta à clássica pergunta sobre influências, que de Belém eu só tinha uma, Walter Bandeira. Ninguém entendia, porque Walter nunca compôs - que eu saiba - e nunca foi dado a gravações; todas as vezes que se apresentou a idéia de um disco era como se ele quisesse fugir de qualquer registro que o deixasse fixado no tempo. O resultado é que quase nada do que ele gravou o representa. A despretensão dele me ofendia, porque eu sonhava, aos 20 anos, com a imortalidade... enquanto ele a desprezava, embora fosse o único que pudesse ter essa condição entre os cantores paraenses, por uma razão simples: Walter era um artista do mundo, sem nunca ter saído de Belém.

Talvez essa influência tenha nascido de uma das poucas conversas que tive com ele. Não me recordo o ano, mas certamente há quase 20 anos atrás. Eu fazia minha primeira "temporada", num bar que se tornou mítico em Belém, o Maracaibo. Devo ter tocado durante um ou dois meses, um dia da semana qualquer. Engraçado, não lembro se foi grande coisa musicalmente, mas lembro de duas conversas, em dois dias diferentes, que marcaram aquele momento. Lembrá-las aqui é bem representativo para que se possa entender a afirmação acima sobre o lugar do Walter.

Vou contar primeiro a cômica, travada com um já veterano compositor, que deve ter ido ao Maracaibo sondar quem era o violinista de nome inglês que se apresentaria ali. Deve ter se decepcionado ao encontrar, no máximo, um pequeno sonhador, cantando mal canções ainda ingênuas; ainda assim ficou. Ao final, me chamou de lado e disse: Rapaz, seu trabalho é bom, mas esse seu nome não vai pra frente, é muito americanizado; é o seguinte, vou te rebatizar, de hoje em diante você vai assinar Paulinho Cabanagem. Não esquece, Paulinho Cabanagem! Vou preservar o nome do digníssimo paraense, pois ele ainda vive; eu acho.

Corta pro outro dia. Desci do palco e vi o Walter sentado no balcão, ou numa mesa, sozinho. Fez um sinal para que eu fosse até ele. Estava no quinto copo de uísque; vá saber. Ele disse assim: Você é o único cantor além de mim que usa os graves nesta cidade; você precisa continuar cantando assim, não como esse bando de viadinhos que cantam agudinho por aí, assim é que se canta! - bom, nem preciso dizer que era generosidade pura, muito uísque, e também porque ninguém cantava nos graves como ele e o Walter sabia disso; quanto mais suja, destroçada pelo uísque e pelo cigarro, mas personalidade tinha sua voz. Mas foi desse dia em diante que parei de achar que cantar grave era não saber cantar. E foi nesse dia que soube que jamais cantaria como ele.

Essa lembrança diz muito do que ele representa. Foi com ele que eu ouvi pela primeira vez as canções de Caetano e Chico dessacralizadas, ou melhor, re-sacralizadas, imersas em outro tempero, em outra emotividade, em outra natureza, e deixe de pensar que cantar Caetano era trair a terra; quanta bobagem. Walter era viril quando cantava, mesmo requebrando e tentando desanuviar o peso de sua presença em cena.

Certa vez, na antiga CLIMA (Associaçao de Letristas, Intérpretes e músicos do Pará), na gestão Gilberto Ichihara, inventaram um projeto no Líbero Luxardo onde um artista veterano "convidava" um outro, iniciante. Dei a sorte de ser o escolhido para dividir com ele o palquinho que tantas alegrias nos deu na época. Ele entrou primeiro e eu o assisti tremendo, escondido na coxia esperando minha vez de entrar.

Quando chegou minha hora ele deitou no palco em frente a mim fazendo pose de "ninfeta" (de ladinho com a mão no queixo). Fazia de conta que estava admirado com minha performance,  mais um lance de generosidade inesquecível.

Hoje, longe de casa, lembrando desse artista incrível, só me vêm essas imagens: talento, generosidade e uma vontade incansável de parecer mortal.

 

 

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